Novos Tempos
Por Felipe Machado
Neste início de século 21, uma nova geração de cantoras tomou de assalto os palcos do País e confirmou a tese de que as vozes femininas representam o que temos de melhor na música brasileira. A maioria desses novos nomes, como Céu e Mariana Aydar, envereda pelos caminhos da MPB, com pitadas de samba e sotaque tradicional. Mas uma das vozes mais afinadas deste cenário não quer nem saber de pandeiros e atabaques. O negócio dela é música pop.
Cláudia Gomes é a vocalista do Vega, grupo que chega ao seu segundo disco com o mesmo som de primeira que mostrou na estréia, em 2002. ‘Novos Tempos’ traz a mesma formação de ‘Flores do Deserto’: Marcos Kleine (guitarra e violão), Mingau (baixo e backing vocals) e Caio Mancini (bateria).
Produzido pela própria banda, ‘Novos Tempos’ traz elementos que raramente são ouvidos em um disco de pop. Além de detonar na guitarra, o virtuoso Kleine toca banjo e cítara; Luciano Kathib abusa nos toques de percussão; o blueseiro Thiago Cerveira destrói na gaita. Há também trompete (Zezinho Fernandes), teclado (Zé Ruivo e Mano) e a participação de Douglas Caturani nos vocais da excelente ¬‘Consciência’ – talvez a mais pesada de todo o repertório.
A banda Vega, conhecida do público brasileiro por meio de diversas rádios, tem as composições como seu ponto forte. Mas não custa nada receber a mãozinha de nomes de peso como Leoni, do Kid Abelha, e Alvin L., compositor do Capital Inicial, que deram de presente a bela ‘História do Mundo’. Do 365, ex-banda do baixista Mingau (que hoje toca também no Ultraje a Rigor), o Vega pegou emprestada ‘São Paulo’, uma das canções-hino dos anos 80. É interessante ver como uma canção de revolta pode tornar-se bela quando se troca a voz rústica de um vocalista roqueiro pela doçura de uma musa pop. Outra que terá lugar garantido nas paradas de sucessos é a versão para ‘Construção’, de Chico Buarque. Com guitarras à la David Gilmour, do Pink Floyd, a ‘Construção’ do Vega tem tanta personalidade que poderia facilmente ser chamada de ‘Reconstrução’ – e chama a atenção pelo arranjo original e cheio de vitalidade.
‘Novos Tempos’ marca uma nova fase para o Vega. Não é apenas um grande disco, mas a prova de que é possível seguir um belo álbum de estréia com um álbum melhor ainda. O destino do Vega é o mesmo da estrela que batizou a banda: brilhar
VEGA [3:30 AM]
Vega - Flores no Deserto
Confesso que desde a primeira vez que vi a capinha do CD da banda Vega, isso logo depois do seu lançamento, fiquei curioso para conhecer o trabalho do grupo. Nem tinha me tocado que entre seus integrantes havia uma cara conhecida, o baixista Mingau, o que havia me atraído era o fato da banda ter uma vocalista. Antes que venham me chamando de tarado, explico: sou apaixonado por bandas com vocal feminino, adoro 10000 Maniacs, Blondie, Sundays, Cranberries e muitos outras. Bom, passado o lançamento acabei esquecendo da banda – sim eu sei, foi uma falha imperdoável - que acabei reencontrando agora no começo de 2003, o que me redime um pouco, não?
O Vega é formado pelo baixista Mingau – que já tocou por trocentas bandas paulistas, incluindo Ratos de Porão, 365 e Ultraje a Rigor. Acho que ele e o Scandurra devem disputar pra ver quem toca em mais bandas - Marcos Kleine e Zé Younes nas guitarras, Caio Mancini na bateria, Luciano Khatib na percussão e Claudia Gomes no vocal. Feitas as apresentações vamos ao que interessa, o primeiro trabalho desta banda paulistana, o disco Flores no Deserto lançado pela gravadora FNM.
A primeira coisa que chama a atenção quando botamos o disquinho pra tocar é a bela voz da Claudia, descoberta por um amigo do Mingau, logo nos primeiros testes já estava escalada para o vocal do Vega, e, posso dizer, foi um tremendo achado. Além de imprimir às composições um sentimento único, ser multi-instrumentista, como vi em dois shows da banda, onde ela toca gaita e violão, é também co-autora de nove faixas das treze faixas deste CD.
O disco abre com Flores no Deserto, com uma bela letra e arranjo muito bem feito, tudo casa perfeitamente para que o vocal tenha o destaque que merece. Vozes de uma dor, que esta sendo uma das músicas mais pedidas na Nova Brasil FM, lembra muitas coisas, de 10000 Maniacs a Sheryl Crow, passando por Sundays. Isso acontece em várias faixas deste disco, mas é muito mais reflexo dos gostos totalmente diferentes de cada integrante que outra coisa.
Além de serem bons compositores, o pessoal do Vega também contou com a ajuda do excelente letrista Alvin L em Setembro – e também em Inverno - uma das mais belas músicas do grupo que começa assim: Agora é setembro/E não adianta afogar as minhas mágoas depois que elas aprendem a nadar/ Agora é novembro/O sol me castiga, mas o calor vem de outro lugar. Simples e direto. Em Minuto Incerto, pra mim a melhor do disco, vemos o potencial da Claudia que brinca com a voz de uma maneira tão natural como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Outra parceria foi feita com Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, que assina as faixas Inverno e Incondicionalmente. Essa última também foi gravada pelo Capital no Rosas e Vinho Tinto, mas fica muito mais bela com a Claudia cantando. Um pouco mais adiante, mais precisamente em O Sonho Acabou, o Vega começa a flertar com a nova MPB, mesclando com um pouco de blues. Esse lado MPB é mais visível em Pra não Pensar em Você que, com a participação de um saxofonista ponteando a música, que também tem elementos da bossa nova.
Mas foi ao vivo que o grupo me conquistou, as músicas funcionam perfeitamente no palco. A voz da Claudia é até mais bonita do que nas faixas gravadas e é também onde ela se solta mais, subindo e descendo o tom, cantando em falsete, além de estar muito bem assessorada pelo pessoal da banda. É gostoso ver, na cara de cada membro do grupo, que eles estão adorando o que estão fazendo. A versão apenas para voz e guitarra para A Luz que Há Em Você ficou diferente e gostosa de ouvir - no disco o acompanhamento é feito no piano. Nas demais o som também fica um pouco mais pesado, deixando a MPB de lado e assumindo a faceta pop/rock. Pena que faixas lindas, como Tempestade e Dia a Dia não fazem parte do set ao vivo. As covers também foram bem escolhidas, indo desde a versão feita pela banda Frente para Bizarre Love Triangle do New Order, passando por Patti Smith e chegando a Alanis e Natalie Imbruglia.
O disco poderia ser perfeito se não fosse alguns trechos nas músicas que tentam deixar o trabalho um pouco mais próximo da nova MPB, mas esta impressão é dissipada quando vemos o trabalho ao vivo do Vega. O bom trabalho das guitarras de Marcos Kleine e Zé Younes, aliado aos arranjos mais diretos, sem os vários instrumentos que aparecem no disco, deixam o som mais rock. Com certeza eles devem estar extremamente felizes com o caminho que a banda esta trilhando.
VEGA [3:24 AM]